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Nós temos 20 visitantes online| A Infância em tempos de Consumo |
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| Consumo - Artigos e Teses | |||
| Escrito por Laura Sacchi Baptista | |||
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Se tivéssemos que contextualizar um tempo específico, a contemporaneidade, o presente imediato, poderíamos dizer que vivemos em tempos de consumo? Sendo isso uma afirmativa, quais seriam os efeitos subjetivos de vivermos em um tempo em que as ordens de consumo se oferecem sempre marcadas pelo excesso? Que a infância se encontra inevitavelmente atravessada pelo universo próprio do individualismo e do consumo nós já sabemos. Cabe, porém, analisarmos quais são os efeitos que esses significantes culturais e sociais produzem na infância, já que estes estão intimamente relacionados à construção subjetiva das crianças.
A história nos ajuda a contar um pouco como chegamos à organização e ao cenário social que temos hoje. O individualismo tornou-se traço dominante de nossa época e na atualidade aparece de forma autoritária e arbitrária. O advento do discurso da ciência, que fala de uma nova relação com o saber, trouxe mudanças na organização das famílias. Mas o que de mais determinante ocorreu nestas transformações foi a mudança no discurso ordenador dos laços sociais. Frente ao enfraquecimento simbólico, o valor passou a ser dado diretamente pela posse do objeto. O lugar social, que antes era garantido pelas malhas da filiação, hoje é dado a partir das possibilidades que o sujeito tem de ter e de consumir. Para Teixeira (1997), este declínio simbólico age sobre as relações entre os sujeitos e provoca os mais variados efeitos.
Frente às transformações no discurso contemporâneo, a cultura do consumo e o mercado passaram a regular as novas formas de gozo, e ato de consumir aparece como saída na busca de uma satisfação suposta. O consumo de objetos para o adulto dita sua prevalência na ilusão de cumprir uma promessa de prazer, que, por vezes, se mascara como necessidade. Fazendo uma analogia com o infantil qual será a real necessidade das crianças em termos de objetos de consumo?
Bauman (2008), na obra Vida para Consumo, trabalha com a hipótese de que, independente do contexto ou da época, podemos considerar a questão do consumo de diferentes pontos de vista. Por exemplo, no que se refere às atividades cotidianas e necessárias à sobrevivência, o consumo passa ser algo trivial e até mesmo uma condição. Garante que, por toda a história humana, as atividades de consumo são relatadas, mas as representações de consumo vêm se moldando de acordo com o que ele chama de “inventividade cultural”. O que ele faz questão de marcar, dentro da história, é a existência de um ponto de ruptura, que marca a passagem do consumo para o “consumismo”, isto é, não se trata mais de uma característica nem de uma ocupação dos seres humanos, mas sim de um atributo da sociedade, que de certa forma impõe uma nova ordem social aos sujeitos.
Acredita-se que a sociedade atual responde a uma “cultura consumista” que provoca os anseios e os desejos a fim de que as pessoas se esforcem ao máximo para conseguir fazer parte da sociedade de consumidores. E esse anseio é igualmente sentido pelas crianças, pois muito precocemente elas já estabelecem uma espécie de relação com as compras porque entendem que, para fazerem parte do grupo, precisam de objetos para se diferenciar. Paradoxalmente, à medida que se ajusta a relação da criança com os objetos, há um afastamento dela de seus pares.
Quando a criança, por exemplo, atribui menos valor a um outro semelhante a ela, acaba optando por brincadeiras individuais, privando-se, assim, de experiências que implicam alteridade. E essa conseqüência está relacionada ao fato das crianças tomarem como espelho as “famosas” que estampam as capas de revistas e a mídia televisiva. Ou seja, as crianças hoje querem ser vistas e desejadas pelas outras crianças que olham para elas como se estivessem olhando para qualquer outro objeto que desejam como roupas, calçados ou brinquedos[1].
Sabemos que os sujeitos são tocados pelo consumo de forma singular, porém, se no discurso parental já aparece a idéia de que a felicidade provém de algo que se possa comprar, as chances das crianças crescerem nesta mesma lógica aumenta significativamente.
Os pais, em função do narcisismo, equivocadamente, oferecem aos pequenos tudo que a publicidade oferece, como se dar aos filhos aquilo que lhes faltou, ou que não existia, como no caso dos brinquedos eletrônicos, fosse sinônimo de amor. O resultado disso aparece nos quartos infantis. O excesso de brinquedos faz com que nos questionemos sobre o real fundamento do acúmulo, se a maioria dos objetos infantis que ali se encontram nem mesmo fazem sua função como brinquedo para a criança brincar.
Os pais não querem carregar a culpa de terem negado algo a sua prole. Talvez confusos entre a fronteira do consumo e do consumismo, querem dar aos filhos o que nunca tiveram.[2] Todavia, por esse caminho, carregado pelo excesso de amor narcísico, correm o risco de deixar de transmitir pela palavra algo que fala de uma lei simbólica, própria da função paterna. Ou seja, a lógica do consumo dificulta a interdição em relação às crianças. Neste sentido, o pensamento parental se apresenta invertido, isto é, a interrogativa que deveria ser: por que dar? Transforma-se em: se tenho dinheiro por que não dar?
Em tempos em que a autonomia e a liberdade aprecem de forma imperativa, não é de se estranhar que os adultos transmitam esses valores para as crianças, dando a elas algum dinheiro para que escolham dentro do universo infantil o que querem adquirir. Lipovetsky (2007) nos coloca que a época do filho “mudo” não existe mais, que, atualmente, a criança além de dar a sua opinião, escolhe e solicita seus objetos na mesma lógica que seus pais. Respondem a um estilo de consumo que leva em conta seus desejos e que tem como finalidade a satisfação. Que a criança desenvolva sua autonomia fazendo pequenas escolhas em relação aos objetos que elege para brincar não nos preocupa. O que faz com que fiquemos atentos é perceber que esse acesso ao objeto por vezes chega à criança como irrestrito. E isso produz efeitos subjetivos difíceis de mensurar, mas que acabam chegando aos consultórios terapêuticos na de forma de sintomas ou transtornos.
Nas crianças que chegam com quadros depressivos, por exemplo, é possível que o sofrimento esteja estritamente relacionado à necessidade de encontrar um lugar com seus pares. Sentem-se fora, excluídos, por perceberem que seu esforço para adequar-se ao grupo não foi suficiente. Interpretam esses episódios como fracasso e, com frequência, não conseguem escapar do vazio da tristeza, da angústia e das somatizações. E uma outra situação, que também é social, está relacionada ao fato de a sociedade reservar um lugar privilegiado às crianças. Logo, os pais têm a “sua criança” como seu bem mais precioso e vêem no filho a possibilidade de uma nova projeção. Todavia, pouco se reflete em relação aos efeitos que recaem na criança, quando se passa a exigir dela retornos ideais em resposta aos investimentos monetários e emocionais depositados nela.
A publicidade, por sua vez, encarrega-se de ditar os modelos a serem seguidos para que os pais tenham “filhos de propaganda”. Há muito pouco cuidado no que se refere a uma ética em relação à forma como a publicidade se impõe. Ela se usa do fato de esses pequenos sujeitos ainda não terem juízo crítico, nem maturidade para entenderem o conteúdo das mensagens que os leva a querer insistentemente os produtos. A publicidade, como veiculadora do discurso social capitalista, oferece, via imagem, não só ideais de felicidade, mas também pretende sempre assegurar ao consumidor garantias, como se isso fosse possível. Dessa forma, quer nos passar a mensagem de que somos o que compramos. Como se a felicidade dependesse daquilo que conseguimos adquirir e consumir. Mas, no caso das crianças, será que elas são o que compram e consomem?
O cuidado com a infância em relação aos apelos da mídia deve ser observado, pelo simples fato da criança ser um sujeito em formação e esta ressalva é justamente o que deixa de ser respeitado pela publicidade[3]. No momento em que as crianças são expostas desde cedo a mensagens com um discurso dúbio ou fantasioso, pode haver, nos processos de subjetivação, efeitos que influenciam inclusive as posições que elas assumirão quando forem adolescentes e adultas[4].
Os objetos de consumo provocam o desejo do consumidor, estimulam a necessidade evidente do excesso ou do novo e, no caso das crianças, os brinquedos e jogos não se apresentam isoladamente, mas na forma de coleções. No momento em que um objeto se torna trivial, logo já vem outro, que se torna o novo desejado dos pequenos. Os efeitos desse excessivo oferecimento de objetos coloca a criança, muitas vezes, numa posição de consumo sem limites.
A insaciabilidade que vimos nas crianças hoje traz prejuízos a suas relações. Chegamos a vê-las selecionando outras para brincar, em função de terem ou não determinado brinquedo. Esse fato nos chama atenção porque, na experiência da infância, isso não se previa tão precocemente, até porque a dimensão lúdica que o brincar abriga deveria minimizar as diferenças, possibilitando a troca com o outro. Dessa forma, manter-se entre os “escolhidos” ou suportar a exclusão não é tarefa fácil. No trabalho clínico com as crianças e a família, objetiva-se buscar sempre novas vias de significação e intervenção, considerando que o gozo para a criança está nas brincadeiras e nas trocas, e não no acúmulo de objetos sem sentido. Por esse caminho, elas conseguem manifestar seus afetos e resolver seus conflitos, dando um outro lugar ao sintoma.
Bibliografia:
BAUMAN, Zigmund. Vida para Consumo. A transformação das pessoas em mercadoria. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
FREUD, Sigmund. Sobre o Narcisismo: Uma Introdução (1914). Rio de Janeiro: Imago, 1969.
GOLDENBERG, Ricardo. GOZA ! Capitalismo Globalização e Psicanálise. Coleção Discuso Psicanalítico, Salvador: Ed Álgama, 1997.
LIPOVETSTSKY, Gilles. Felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade do hiper consumo.São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
MEIRA, Ana Marta. A cultura do brincar: a infância contemporânea, o brincar e a cultura do espaço da cidade, 2004, v.1. p.181. Dissertação de mestrado em Psicologia Social e Institucional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Home page: Biblioteca Digital de Dissertações e Teses da UFRGS.
www.institutoalana.org.br acesso: dezembro/2008.
www.mariaritakehl.psc.br acesso: fevereiro/2009.
O presente trabalho é uma síntese da monografia A Infância em tempos de Consumo (Baptista; 2009), realizada no curso de Especialização em Psicologia Clínica Escutas da Infância, coordenação de Marcos Medeiros, UNIFRA, Santa Maria, RS, com orientação da psicanalista e professora Ana Marta Meira
Laura Sacchi Baptista é Psicóloga é graduada pela UNIJUÍ, formação em Psicologia Escolar e Especialização em Psicologia Clínica pela UNIFRA/Santa Maria/RS (2009). [1] Para Meira (2004), esta característica que observamos, principalmente nas classes mais favorecidas, representada por uma busca incessante por objetos, como condição de pertencimento ao grupo, reflete algo que se repete no discurso contemporâneo e que fala de uma forma automatizada de consumo. [2] Esta posição foi analisada por Freud em Introdução ao Narcisismo, em 1914. (1969)
[3] Vários autores apresentam reflexões sobre a relação entre a infância atual, o consumo e a publicidade entre eles PAIVA (2008), BAUMAN (2008), KEHL (2009).
[4] As crianças brasileiras chegam a influenciar cerca de 80% nas decisões de compra de uma família. (INS/Intesience, outubro, 2003, disponível em www.institutoalana.org.br)
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