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Filosofia para Crianças e a pergunta PDF Imprimir E-mail
Eixos transversais - Filosofia
Escrito por Darcísio N. Muraro   

A pergunta é a alma da Filosofia.

     O que significa a infância? Seria uma idéia subjetiva ligada à história de cada ser pensante? Quantas infâncias há na vida? Uma só? Seria uma fase da vida? Seria a pura manifestação de instintos naturais? Seria um estado vazio ou de ausência a ser preenchido?  Uma passagem para a não infância? Teria um fim, um ponto de chegada, um estado terminal, acabado como o ser adolescente, jovem ou adulto? Seria a infância o fator determinante do futuro da vida? Seria um “porto seguro” ou “inseguro” ao qual se retorna consciente ou inconscientemente ou deveria ser evitado? Seria a infância uma mera fantasia ou idealização? Seria a infância uma idéia-necessidade criada para o consumo dos produtos da indústria capitalista? Seria a infância um conceito recente que reconhece o sujeito de direitos? Teria, assim, a infância cidadania? Estaria a infância presente em toda a vida? Seria a infância um nascimento, um começo, um redirecionamento, uma possibilidade adormecida e diferente da vida? Será que estas questões ou outras que cada um pode se fazer não remetem a própria experiência da infância?

    Observar um bebê ou uma criança e em certa medida consultar a própria memória, pode mostrar a complexidade da infância. A relação da infância com o nascimento é forte. E há muitos nascimentos: o primeiro choro de estranhamento do mundo e cada choro diferente é um nascer;  o aparecimento do riso, o primeiro olhar do “olho no olho”, o balbuciar, o sentar, o engatinhar, ficar de pé e dar os primeiros passos, o pronunciar das primeiras palavras, fazer os primeiras desenhos... são todos nascimentos. Um nascimento singular, um autêntico nascer de si, acontece na experiência de perguntar. A experiência de perguntar é a busca pelo sentido. A sua conquista traz diferença à vida, portanto um nascimento...
Perguntar é um esforço do corpo-pensamento de lidar com o que é novo, com as dificuldades, conflitos e dúvidas. As perguntas expressam o desejo da criança de saber os mínimos detalhes da vida. As fontes que alimentam o perguntar são a curiosidade e a imaginação que atuam como portas e janelas para a descoberta do mundo.

    Quem não lembra o quanto ficou intrigado com aquelas perguntas que desejavam descobrir os segredos do mundo? Quanto tempo entretido na brincadeira de perguntar? Quem não fez na vida uma pergunta que gerasse grande impacto em si mesmo, nos pais, amigos, professores? Saltando nas experiências mais simples, as perguntas impulsionam a criança para buscar o conhecimento necessário para viver num mundo incerto. Ao mesmo tempo, as perguntas e o fulgor mental que elas geram em busca de um sentido levam também a criança a compreender melhor sua condição no mundo. Está em marcha um movimento corporal-mental que provoca a transformação profunda na própria criança, de seu jeito de agir, de brincar e de ver a realidade. A criança se desenvolve e crescer na medida em que amplia as ferramentas para lidar com mundo subjetivo, social e natural.

    Pensemos um pouco mais na infância como abertura da experiência de indagar repleta de emoção e razão. A criança é naturalmente curiosa, imaginativa e esforçada para atingir certos objetivos como brincar e descobrir o mundo. O encantamento diante dos acontecimentos cheios de novidades, mistérios e surpresas é um estímulo para aventurar uma pergunta. A criança adora esta aventura de entrar numa roda do questionamento. Tudo fica em suspensão como no movimento de um balanço. É o prazer da experiência de distanciamento e aproximação. O espanto, o estranhamento move a criança. Ela toma consciência de seu saber e de sua ignorância, forças que a impele a querer o sentido das coisas. Em outros termos, o sujeito e objetos tomam posição nesta brincadeira. Pode-se dizer tecnicamente que se “faz a suspensão dos juízos ou pré-juízos”. Entram em cena outros sujeitos, já que a pergunta remete sempre a um contexto socializado. O dinamismo do jogo das perguntas conta agora com a reação destes sujeitos que podem aprovar, estimular e se envolver infantilmente nesta atividade exploratória, ou acabar logo com ela, mostrando indiferença, respostas evasivas e até repressão. “Cala a boca Menino!” “Pergunte para seu pai!” “Pergunte para a professora!” “Isso é coisa de perguntar?” Colocações dessa ordem continuam a acontecer a todo o momento e abortam a possibilidade de nascer... Por outro lado, as crianças são também interrogadas constantemente. Este é o outro lado de uma experiência compartilhada dos problemas. Compreender uma pergunta e buscar uma resposta exige reflexão. Nem sempre os adultos se preocupam com as conseqüências das perguntas que fazem às crianças. Quantas perguntas inibem a possibilidade da criança ampliar sua possibilidade de conhecimento e de perguntar... Assim, chegamos ao ponto: saber lidar com as perguntas é um dos grandes problemas da educação em qualquer instância: familiar, escolar, informal, etc. A maneira como as experiências sobre perguntas são conduzidas tem papel decisivo na formação ou deformação da atitude indagadora que perdurará pela vida afora.

    Um olhar atento às perguntas das crianças revela a riqueza de atividade de uma mente inquieta, curiosa, observadora, criativa e um espírito investigativo querendo desabrochar. Perguntamos: é possível cultivar e desenvolver esse “pensamento interrogante” da infância? Como? E as crianças que não perguntam? Existiriam bloqueios ao perguntar? Haveria uma outra infância de não perguntar? È possível lidar com esta situação? Seria possível despertar as perguntas adormecidas no universo infantil? Quais seriam as conseqüências disso? Que relação há entre perguntar e aprender, perguntar e pensar? E possível o educador  mediar a relação com as crianças utilizando perguntas? Existem situações adequadas para isto? Existem perguntas certas e erradas? As crianças devem fazer perguntas ou elas devem apenas responder as perguntas dos professores?

    Perguntar é uma atividade que só o ser humano é capaz de fazer e, certamente a mais importante de todas para a formação de um pensamento autônomo. As perguntas começam a aparecer muito cedo na vida da criança, especialmente com a aquisição da linguagem. A criança dá vida às palavras, brinca com elas, faz delas um brinquedo. As palavras se transformam no brinquedo dos brinquedos e das brincadeiras e isto possibilita construir um mundo imaginário. É certo que, às vezes, a brincadeira faz uma reviravolta quando o próprio “brinquedo” passa a jogar com a criança. Mas é isso que intriga, ou seja, a descoberta da variedade de relações que o pensamento pode fazer com o uso da linguagem. Neste processo de construção dos significados surgem problemas, ou seja, algumas relações tornam-se confusas, incompletas, ou então, quando confrontadas com as crenças já adquiridas, aparecem contradições, dúvidas, diferenças ou, então, estas conexões se tornam mesmo muito engraçadas provocando, inevitavelmente, muitas perguntas.

    Já afirmamos que as perguntas das crianças expressam o encantamento diante do mundo e a necessidade de compreendê-lo melhor. Poderíamos inferir ainda que é na pergunta que está o interesse, ou a fome pelo conhecimento necessário para nutrir o pensamento na busca de significados. Esta busca pressupõe o diálogo. A educação é o desenvolvimento deste princípio, ou seja, um amor efetivo às questões que tonam o ser humano reflexivo.

    As descobertas e construções da Filosofia, da Ciência, da Religião e da própria Arte, que constituem a humanidade de hoje, originaram-se de perguntas que captaram os problemas centrais da existência. As perguntas sempre estão na ordem do dia de quem se propõe a investigar, critica ou criar. Elas são a força motriz da descoberta e da construção da cultura humana. Se o problema toca a sensibilidade humana ainda não neutralizada pelo verniz das respostas prontas, a inteligência encontra as perguntas adequadas para desenvolver novas concepções. Responder as perguntas portadoras de questões relevantes, buscando encontrar as melhores respostas, é a outra parte da prática investigativa. Neste processo de construção das “boas respostas” aparecem muitas outras perguntas e esta rede de perguntas e respostas abre o leque de alternativas na investigação do desconhecido. Assim, nascem as ciências, mas elas morrem também na medida em que são ensinadas como saberes prontos. Uma mente aberta ocupa-se com perguntas que interpelem as diversas dimensões da investigação cunhadas pela tradição da filosofia como sendo a epistemologia, ética, política, econômica, estética, antropologia ou do rigor da lógica e da linguagem. Estas dimensões são possibilidades do filosofar, mas um nascimento pode surpreender... Ao mesmo tempo, a relação perguntas-respostas tem repercussões na prática, na medida em que permite refletir sobre os problemas e prever soluções, que são caminhos para conduzir a ação de maneira inteligente. É por isso que a pergunta desperta e conserva a curiosidade e a crítica e, nesse percurso, acaba melhorando consideravelmente a maneira de pensar, imaginar e criar, como resultado do exercício de diferentes habilidades e competências. Outro aspecto importante é o desenvolvimento da auto-estima, ou seja, o senso de que se é capaz de formular boas perguntas e buscar respostas, ou, pelo menos, compartilhar a pergunta com alguém que ajude a encontrar caminhos. Assim, a pergunta contagia outras pessoas dispostas a buscar respostas às questões antes não percebidas ou sentidas. Desenvolve-se uma simpatia inteligente pelos problemas humanos. Não seria este um bom motivo para uma abertura e acolhimento maior, mais radical à pergunta, ao cultivo desta atitude questionadora necessária a qualquer processo de reflexão, crítica e criatividade?

     Imaginemos agora esse movimento encadeado de perguntas-repostas em torno de problemas concretos dos alunos acontecendo numa sala aula. Torna-se uma espécie de jogo, no qual o diálogo que se estabelece entre as crianças e o professor é extremamente significativo, desafiador e lúdico. Mais do que isso, é uma aprendizagem viva em que os alunos participam de todo processo: formulação e registro das perguntas com as respectivas autorias, organização das perguntas em grupos conforme as questões suscitada de determinado problema, aprofundamento destas questões no diálogo da comunidade, registro dos resultados: conceitos construídos, hipóteses, novas perguntas, ações propostas. Além de aprender um conteúdo de forma reflexiva e contextualizada, aprendem-se também valores: respeito pelas diferenças de opiniões, interesse pela investigação do que é problemático na realidade, envolvimento com os objetivos comuns, respeito às regras combinadas na comunidade de sala de aula, capacidade de esperar a vez e de exigir sua vez para expressar seu ponto de vista, capacidade de se comunicar com clareza com os outros, solidariedade e tolerância às diferenças, responsabilidade com a prática democrática e com a própria educação. O processo comporta também uma aprendizagem emocional, na medida em que a criança tem a oportunidade de se questionar sobre certos sentimentos e investigar sua procedência, pertinência e relevância para sua vida em grupo. É nesse contexto de comunicação que se desenvolve a reflexão acerca da própria linguagem, condição básica para a reflexão em qualquer área de conhecimento. O inverso desta prática é a educação centrada na repetição das perguntas e respostas já prontas de um conteúdo acabado. A fragmentação do conteúdo em questões dá uma falsa idéia do processo de conhecer, como se este fosse apenas uma pergunta e uma determinada resposta. Destina-se à memorização e pressupõe que o aluno milagrosamente junte as partes para formar uma compreensão ampla de certa matéria. Esta prática colabora, indiretamente, para inibir o potencial indagador dos alunos. Contribui para desenvolver atitudes de acomodação ou adaptação passiva do aluno ao mundo dos conhecimentos. Uma coisa é ensinar palavras, conceitos, frases, concordâncias, equações, informações para se guardar na memória, outra, bem diferente, é ensinar a perguntar e pôr o pensamento a procurar respostas que podem se transformar em conceitos, frases, equações, etc. A dificuldade está em perceber que a pergunta da criança sempre toca algo da cultura, daquilo que é humano e, por isso, de extremo interesse para ela, e por que não da própria sociedade. E não é disso que trata o “conteúdo curricular”? E não é a criança reconhecida como cidadã? Ensinar a perguntar é re-ensinar o encantamento, o assombro, o distanciamento inteligente desta realidade, para captá-la de forma problemática. Responsabilidade, interesse e esforço nascem, naturalmente, de uma criança intrigada por um problema vital a ser investigado. O ser pensante aprende também a correr riscos e lidar com a novidade. Há que se reinventar o caminho!

    O processo de aprendizagem conduzido por perguntas encadeadas de forma a aprofundar um problema em comunidade cria uma “pedagogia da pergunta”. Esta prática dá espaço para desenvolver o pensamento inquiridor, crítico, criativo e, ao mesmo tempo, ético. Aprender a trabalhar com a pedagogia da pergunta põe o problema de olhar criteriosamente a postura do professor como mediador. Vivemos numa cultura de perguntas e respostas já prontas e que viciou também o modo de perguntar e responder. Perguntas fora deste quadro atrapalham a aula e são um incômodo para a memorização do conteúdo, ou pior ainda, para se vencer um conteúdo pré-determinado e obter a nota ou passar no vestibular. Aqui a cultura é: só se pensa se vale nota! Afirma-se que as próprias crianças têm que fazer perguntas, refletir sobre elas e, em seguida, nega-se a classe este direito submetendo-a a uma prática autoritária que poda este caminho já que tem conteúdo a ser “vencido”. Ou, ainda, não se admite a possibilidade de errar a pergunta e auto-corrigir o curso da investigação. Portanto, o desafio é aprender a lidar com o medo das novas perguntas e desenvolver uma cultura que estimule um perguntar de forma diferente: genuíno, radical, aberto e constante, buscando explorar profunda e significativamente as idéias. Uma cultura de perguntas interroga de forma substantiva, tanto os conhecimentos, quanto o processos utilizados para aprender a conhecer. Questionar para não se aceitar algo como natural, para não se aceitar passivamente os significados sem o processo de entendimento das razões, pressupostos que os sustentam e as conseqüências que decorrem. Ensinar a perguntar é ensinar a pensar por si mesmo. E aprender o processo de pensar as perguntas e as respostas é aprender a aprender. E como este aprender a aprender necessita de uma prática de compartilhar idéias em comunidade, deliberação conjunta, busca de consensos, respeito ao dissenso ele constrói as atitudes de vida democrática de exercício de cidadania.

    Afirmar que a criança tem o direito de pensar é reconhecer o dever das escolas e educadores de ensinar a pensar. A cultura do pensar na escola não se faz sem um espaço para a Filosofia, área de conhecimento que tem se especializado sobre a arte de pensar. A atividade de questionamento filosófico deveria ter importância numa educação que se diz no mínimo reflexiva. Educar para o pensar questionador, nesta perspectiva, exige rever muitas de nossas concepções e processos pedagógicos. Dar importância não é meramente adjetivar as práticas dos professores de “filosofia” como se tivesse efeito milagroso na cabeça dos alunos ou na propaganda da escola. Exige pensar criteriosamente a inserção da filosofia, desde seu lugar no currículo de projetos ou de disciplinas ou dito interdisciplinar ou multidisciplinar até a adequada preparação dos educadores.
O resgate da infância como experiência de perguntar não é olhar para trás. É um acolhimento à pergunta, é acolher o nascimento da diferença. É cidadania à infância e infância à cidadania na gangorra da vida. 

Darcísio N. Muraro é graduado em filosofia pela PUC-PR e Teologia pela ITESP. Tem mestrado em História e Filosofia da Educação pela PUC-SP, é doutorando em Filosofia da Educação pela USP. Dirigiu o Centro Brasileiro de Filosofia para Crianças (2004 a 2006), e atualmente exerce a função de direção, gestão de projetos educacionais e coordenação pedagógica do Instituto de Filosofia e Educação para o Pensar e a Fundação Sidónio Muralha. É co-autor dos livros: Dadedidodúvida! Surpresas da Filosofia, Ed. Vozes, 2007, Filosofia e Ensino em debate (Ed. UNIJUÍ, 2002) e O fazer Filosófico (Ed. UNIMONTES, 2007).
Contato: Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo.            Sítio: www.philosletera.org.br




 
Comentários (1)
Gostaria de saber mais sobre a cultura do pensar na educação infantil
1 Dom, 01 de Novembro de 2009 19:47
???
Faço o curso de Pedagogia no UNASP, e em uma das aulas a professora ressaltou a importância de desenvolver a cultura do pensar desde cedo.Fiquei interessada pelo assunto e comecei a perguntar para os professores que tipo de literatura me ajudariam a pesquisar sobre o tema.Gostaria que você me ajudasse,pois será meu projeto de pesquisa.Conto com sua resposta.

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