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Nós temos 20 visitantes online| A Reforma Ortográfica e a Literatura |
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| Literatura - Artigos e Teses | |||
| Escrito por Dirce Waltrick do Amarante | |||
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Embora você tenha até 2012 para se adaptar à nova ortografia da língua portuguesa, ela já lhe atingiu em cheio. Ao incluir novas letras no alfabeto (k, w, y), modificar os acentos, rever o uso dos hífens e apagar de vez o trema das palavras, a reforma ortográfica acabou com a sua tranquilidade (agora, sem trema), fazendo você rever muitas das regras de ortografia que tinha acabado de aprender.
O novo acordo ortográfico trouxe ainda outras dúvidas ao leitor: o que fazer com seus melhores gibis e livros de estória escritos na velha ortografia? E as legendas dos seus DVDs favoritos, que não estão de acordo com a nova grafia? Até os feitos “heroicos” (agora sem acento) de seus “heróis” preferidos (ainda com acento) terão que ser revistos.
A reforma ortográfica tem por objetivo uniformizar a escrita das palavras nos países de língua portuguesa (Brasil, Portugal, Moçambique, Angola, etc) para que a gente se comunique melhor. Acontece, porém, que uniformizar a grafia das palavras não tem nada a ver com uniformizar a língua, pois, embora as palavras em português passem a ser escritas da mesma forma, aqui e do outro do Atlântico, a construção gramatical das frases, a pronúncia das palavras e a escolha do vocabulário depende de quem usa a língua. Logo, o português continuará sendo diferente no Brasil, em Portugal, em Angola, etc. Por exemplo, no Brasil, a gente compra carne no açougue, já, em Portugal, a gente vai à charcutaria. Fica, então, uma outra pergunta: o que muda na hora de ler livros de autores portugueses, moçambicanos, ...? Se, por um lado, com a reforma ortográfica, a ortografia será a mesma nos países de língua portuguesa, por outro lado, as palavras usadas nesses países continuarão diferentes.
Em 2001, o escritor português José Saramago, ganhador do Prêmio Nobel, escreveu uma estória para crianças, A maior flor do mundo (Companhia de Letrinhas, 2008). Ele disse que, ao escrever o livro, se preocupou em escolher palavras bem simples, ao alcance das crianças. O escritor deve ter pensado nas crianças portuguesas, já que, para as crianças brasileiras, com ou sem acordo ortográfico, as palavras escolhidas por ele, apesar de poéticas, podem fazer bem pouco sentido: “Resolveu cortar a direito pelos campos, entre extensos olivais, ladeando misteriosas sebes cobertas de campainhas brancas, e outras vezes metendo por bosques de altos freixos onde havia clareiras macias sem rasto de gente ou bicho, ...”
E o que dizer do gato, personagem do livro O gato e o escuro (Companhia de Letrinhas, 2008), do escritor moçambicano Mia Couto? Afirma o escritor que, certa vez, o gato “escondeu-se num canto, mais enrolado que o pangolim”. Para quem não sabe, Moçambique fica na África e pangolim é mamífero africano e asiático, que se enrola em forma de bola quando atacado. Mas não tem volta, a nova ortografia já está aí e o negócio é dar as boas-vindas ao “pinguim”, que vem sem o trema. Dirce Waltrick do Amarante é doutora em teoria literária e professora de Literatura Infanto-Juvenil na Universidade Federal de Santa Catarina. Atualmente desenvolve pesquisa de pós-doutorado júnior na Universidade Federal de Minas Gerais. Tradutora e ensaista. Traduziu, dentre outros textos, contos para crianças de Eugène Ionesco (Editora Martins Fontes). Colabora em jornais e revistas, como "Diário Catarinense", "O Estado de São Paulo", "O Balainho". É co-editora do site de arte e cultura Centopéia. Contato: Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo. Sítio: www.centopeia.net
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